Oi, empreendedora! Bem-vinda de volta ao Você Empreendedor.
Nas três primeiras histórias desta série, vimos mulheres encontrando oportunidades em lugares muito diferentes. Joy Mangano percebeu um problema em uma tarefa doméstica. Márcia Marques enxergou uma necessidade específica no mercado de cabelos cacheados e crespos. Madam C. J. Walker construiu uma empresa de beleza voltada para um público que encontrava poucas opções adequadas e, além de vender produtos, criou uma rede de formação e oportunidades de trabalho.
Agora vamos para outra história. Uma mulher que não começou com experiência em moda, não tinha uma fábrica, não conhecia pessoas importantes da indústria e não recebeu um grande investimento para colocar sua ideia de pé.
Ela tinha US$ 5 mil guardados, um emprego vendendo máquinas de fax e uma pequena frustração com uma peça de roupa.
Seu nome é Sara Blakely.
Hoje, a marca que ela criou é conhecida como Spanx, mas no início a ideia parecia muito menos grandiosa. Sara queria encontrar uma maneira de usar uma roupa branca sem que a lingerie aparecesse por baixo. Em vez de simplesmente aceitar que não havia uma solução que a agradasse, ela começou a pensar em como poderia criar uma.
O curioso é que Sara não tinha formação em moda nem experiência profissional naquele setor. Segundo o National Inventors Hall of Fame, ela própria contou que nunca havia feito uma disciplina de negócios e não conhecia ninguém da indústria quando começou a desenvolver o produto.
Talvez seja justamente por isso que sua história tenha tanto a ensinar.
Porque, antes de existir a Spanx, existia uma mulher que simplesmente decidiu tentar resolver um problema que ela mesma conhecia.
A ideia apareceu quando ela precisava de uma solução para uma roupa
Sara Blakely nasceu em Clearwater, na Flórida, em 1971. Depois de se formar em comunicação pela Florida State University, começou a trabalhar com vendas de máquinas de fax. Não era exatamente o caminho que imaginava para o futuro, mas o trabalho acabou ensinando uma coisa que seria importante mais tarde: vender.
Ela fazia vendas porta a porta e posteriormente se tornou treinadora nacional de vendas. Enquanto trabalhava, começou a desenvolver uma ideia completamente diferente daquilo que fazia profissionalmente. (invent.org)
A inspiração veio de uma situação bastante simples.
Sara queria usar uma calça branca, mas não gostava da maneira como a roupa íntima aparecia por baixo. Então teve a ideia de cortar os pés de uma meia-calça de controle para criar uma espécie de peça que pudesse ser usada sob a roupa sem aquela parte aparecendo.
O que poderia ter terminado como uma solução improvisada para uma noite específica acabou se transformando em uma pergunta maior:
E se outras mulheres também quisessem isso?
É uma pergunta simples, mas extremamente importante para quem empreende.
Uma experiência pessoal, sozinha, não prova que existe um mercado.
Mas pode ser o começo de uma investigação.
Sara começou justamente por aí.
Ela não sabia fabricar a peça. Então começou a procurar quem soubesse
Uma das partes mais interessantes da história é que Sara não tinha os conhecimentos técnicos necessários para fabricar o produto em escala.
Ela precisava encontrar alguém que pudesse transformar aquela ideia em uma peça de verdade.
E foi aí que começou uma etapa bastante diferente da imagem que costumamos ter de uma empreendedora de sucesso.
Ela passou a procurar fabricantes.
Telefonou para empresas.
Ouviu negativas.
Pesquisou.
Insistiu.
Até chegar a um fabricante na Carolina do Norte.
Segundo o National Inventors Hall of Fame, o fabricante inicialmente rejeitou a proposta. A mudança aconteceu depois que ele contou a ideia às três filhas durante o jantar, e elas o convenceram a trabalhar com Sara. Depois de algumas visitas e muita persistência, ela conseguiu avançar com o desenvolvimento do produto.
É uma pequena passagem da história, mas diz muito sobre empreendedorismo.
Sara não tinha todas as respostas.
Ela não sabia fabricar.
Não conhecia a indústria.
Não tinha uma grande rede de contatos.
Mas sabia qual problema queria resolver e foi atrás das pessoas que poderiam ajudá-la a transformar a ideia em realidade.
Empreender também é reconhecer o que você não sabe e encontrar quem sabe.
O primeiro investimento veio do próprio bolso
Sara colocou US$ 5 mil de suas economias pessoais no projeto. Esse valor foi suficiente para que ela começasse a desenvolver a empresa sem buscar investidores externos.
E há um detalhe interessante nessa fase: ela continuou trabalhando enquanto desenvolvia a ideia.
Durante o dia, vendia máquinas de fax.
À noite e nos fins de semana, trabalhava no novo projeto.
Não havia ainda uma empresa consolidada para pagar suas contas. Não havia equipe grande. Não havia garantia de que o produto funcionaria comercialmente.
Havia uma empreendedora testando uma hipótese.
E isso é importante porque, quando olhamos para empresas grandes, é fácil imaginar que seus fundadores começaram já dedicados exclusivamente ao negócio.
Nem sempre.
Em muitos casos, existe um período em que a pessoa precisa construir algo novo enquanto mantém a estrutura que paga as contas.
Foi o que aconteceu com Sara.
Ela ainda precisava trabalhar, mas passou a usar o tempo livre para pesquisar fabricantes, desenvolver o produto, pensar na marca e entender como poderia vender aquilo.
Até o nome da empresa foi pensado de um jeito diferente
Quando chegou o momento de escolher um nome, Sara não queria simplesmente utilizar seu próprio sobrenome.
Ela escolheu Spanx.
Segundo o National Inventors Hall of Fame, Sara havia lido que palavras inventadas poderiam ser mais fáceis de transformar em marcas e decidiu criar um nome que fosse curto, diferente e chamativo. O “x” também fazia parte da lógica que ela utilizou para tornar o nome mais memorável.
Parece um detalhe pequeno, mas a escolha mostra uma coisa importante: a ideia não estava sendo tratada apenas como um produto.
Sara estava começando a pensar em uma marca.
E existe uma diferença entre as duas coisas.
Um produto resolve um problema.
Uma marca ajuda o consumidor a reconhecer aquela solução e associá-la a determinada empresa.
Naquele momento, porém, Sara ainda não sabia o tamanho que a marca poderia alcançar.
Ela estava simplesmente construindo as primeiras peças do negócio.
A primeira grande loja não apareceu por acaso
Depois de desenvolver o produto, Sara precisava convencer alguém a vendê-lo.
A primeira grande rede a colocar Spanx à venda foi a Neiman Marcus, que introduziu o produto em sete lojas. Depois vieram outras redes importantes, como Bloomingdale’s, Saks Fifth Avenue e Bergdorf Goodman.
Mas uma coisa chamou atenção nessa fase: Sara não dependia apenas de grandes lojas para explicar seu produto.
Ela precisava mostrar por que aquela peça era diferente.
E sua própria experiência com vendas ajudou.
Ela sabia apresentar uma ideia.
Sabia conversar com compradores.
Sabia demonstrar.
E sabia ouvir objeções.
Essa experiência anterior, que poderia parecer desconectada do negócio de moda, acabou sendo extremamente útil.
É mais uma daquelas partes da trajetória que mostram que nem toda experiência profissional precisa estar diretamente ligada ao negócio que você pretende criar para ser útil.
Quem trabalhou com atendimento pode levar conhecimento para um e-commerce.
Quem trabalhou com vendas pode utilizar aquilo em uma empresa de serviços.
Quem trabalhou com produção pode levar processos para um negócio próprio.
Às vezes, a experiência que parece estar “fora do lugar” acaba sendo justamente uma das ferramentas mais importantes.
Então Oprah falou da Spanx
Um dos momentos decisivos aconteceu em 2000, quando Oprah Winfrey incluiu a Spanx em sua lista de “Favorite Things”.
A exposição ajudou a aumentar enormemente a visibilidade da marca. No ano seguinte, Sara deixou seu emprego em vendas e assinou contrato com a QVC. Segundo o National Inventors Hall of Fame, ela vendeu 8 mil pares de Spanx nos primeiros cinco minutos em que apareceu no canal de compras.
Aqui existe uma diferença importante entre contar uma história e criar um mito.
Não foi simplesmente “Oprah falou e a empresa ficou milionária”.
Antes daquela exposição, Sara já havia passado anos desenvolvendo o produto, encontrando fabricante, criando a marca, tentando entrar em lojas e vendendo.
A exposição ampliou algo que já estava sendo construído.
Visibilidade pode acelerar um negócio, mas normalmente ela não substitui a construção que veio antes.
E isso continua muito atual.
Hoje alguém pode conseguir milhões de visualizações em um vídeo.
Isso não significa automaticamente que exista um negócio sustentável por trás daquele alcance.
No caso de Sara, havia um produto, uma marca e uma estrutura começando a se consolidar quando a atenção chegou.
A Spanx cresceu sem o caminho tradicional de investidores
Existe outro detalhe que chama atenção na trajetória da empresa.
Durante seus primeiros 21 anos, Sara manteve 100% da propriedade da Spanx e não buscou investimento externo para financiar o crescimento. Segundo o National Inventors Hall of Fame, a empresa também não pagou por publicidade até 2016, apoiando seu crescimento em aparições de Sara na mídia, recomendações e divulgação boca a boca.
Isso não significa que esse seja o modelo certo para todo empreendedor.
É apenas uma característica específica da história da Spanx.
Há negócios que precisam de capital para crescer rapidamente. Outros conseguem crescer reinvestindo a própria receita. A escolha depende do setor, do modelo de negócio, da velocidade desejada e de muitos outros fatores.
No caso de Sara, preservar a propriedade da empresa foi uma decisão importante durante grande parte da trajetória.
Em 2021, a Blackstone comprou uma participação majoritária na Spanx em uma transação que avaliou a empresa em US$ 1,2 bilhão, segundo a Forbes. Sara permaneceu como acionista da empresa.
A empresa que começou com US$ 5 mil havia alcançado uma escala completamente diferente.
E então veio uma parte importante da história: Sara virou mãe
Quando pensamos em Sara Blakely dentro de uma série sobre mães empreendedoras, existe uma diferença em relação às histórias anteriores.
No caso de Joy Mangano e Madam C. J. Walker, a maternidade fazia parte do contexto da construção inicial de seus negócios.
Com Sara, a maternidade veio depois que a empresa já havia alcançado grande escala.
Hoje, Sara e seu marido, o empreendedor Jesse Itzler, têm quatro filhos. A Forbes registra os quatro filhos em seu perfil biográfico atual. (forbes.com)
Isso permite observar outro lado do empreendedorismo feminino.
Nem toda mãe empreendedora começa o negócio depois de ter filhos.
Algumas constroem a empresa primeiro e depois precisam descobrir como reorganizar a vida quando a família cresce.
E essa mudança também pode influenciar os negócios.
A própria trajetória filantrópica de Sara passou a incluir projetos ligados à maternidade. Sua fundação mantém, por exemplo, o Belly Art Project, iniciativa inspirada na maternidade que também apoia a causa da saúde materna.
Não precisamos transformar isso em uma história de “ela conseguiu conciliar tudo perfeitamente”.
Porque provavelmente não existe essa perfeição.
A questão é outra: a vida de uma empreendedora muda, e o negócio também precisa encontrar novas formas de existir dentro dessa vida.
A mulher que começou vendendo máquinas de fax continuou criando produtos
Sara poderia ter encerrado sua trajetória empresarial na Spanx.
Mas não foi o que aconteceu.
Em 2024, ela lançou a Sneex, uma marca de calçados que combina elementos de salto alto com características associadas ao conforto de tênis. O National Inventors Hall of Fame registra a nova empresa como parte de sua trajetória contínua como inventora e empreendedora.
É interessante observar isso porque existe uma linha conectando as duas empresas.
Na Spanx, Sara percebeu um desconforto relacionado à maneira como uma roupa ficava sob o corpo.
Na Sneex, voltou a trabalhar sobre outro problema conhecido por muitas mulheres: querer usar salto e, ao mesmo tempo, buscar mais conforto.
O mercado mudou.
O produto mudou.
A empresa mudou.
Mas a lógica permaneceu parecida:
observar um incômodo e perguntar se existe uma maneira melhor de resolver aquilo.
O que a história de Sara Blakely pode ensinar para quem quer empreender?
Talvez a primeira lição seja não confundir falta de experiência com falta de capacidade para começar.
Sara não conhecia a indústria da moda. Isso não significa que estivesse pronta para administrar uma grande empresa desde o primeiro dia. Significa apenas que ela não permitiu que a falta daquele conhecimento inicial encerrasse a ideia antes que pudesse testá-la. Ela foi atrás de fabricantes, profissionais e informações que não possuía.
A segunda lição está na experiência que ela já tinha.
Sara era vendedora.
E isso foi útil.
Ela sabia apresentar uma ideia, lidar com rejeição e conversar com compradores. Seu conhecimento não estava na fabricação de roupas, mas estava em uma área essencial para qualquer negócio: vendas.
A terceira está no tamanho do primeiro investimento.
Os US$ 5 mil não criaram a Spanx sozinhos. O dinheiro foi apenas uma parte da equação. Houve trabalho, desenvolvimento, fabricação, distribuição, vendas e uma série de decisões posteriores.
Isso é importante porque números de investimento podem parecer mágicos quando retirados do contexto.
US$ 5 mil não são uma fórmula para criar uma empresa bilionária.
São apenas o valor que Sara conseguiu colocar no início daquele projeto.
A quarta lição talvez seja a mais interessante:
uma solução pessoal pode ser uma pista de mercado, mas precisa ser testada fora da sua própria cabeça.
Sara sabia que queria aquele produto.
Depois precisou descobrir se outras mulheres também queriam.
A resposta veio quando os produtos começaram a ser vendidos.
É aí que uma ideia pessoal começa a se transformar em negócio.
Talvez você não precise de uma ideia completamente nova
Existe uma tendência no empreendedorismo de procurar algo que nunca tenha sido feito antes.
A história de Sara mostra que isso nem sempre é necessário.
Meias-calças já existiam.
Roupas íntimas já existiam.
Peças para modelar o corpo já existiam.
O que Sara fez foi combinar características de uma maneira diferente para resolver um problema específico que ela conhecia.
Essa é uma distinção importante.
Inovação nem sempre significa inventar uma categoria inteira.
Às vezes, significa pegar algo conhecido e perguntar:
“Por que isso precisa continuar sendo feito dessa maneira?”
Foi uma pergunta parecida que apareceu na história de Joy Mangano.
Também apareceu na história de Márcia Marques.
E agora aparece novamente.
Três mulheres, três mercados completamente diferentes e uma característica em comum:
a atenção aos problemas reais das pessoas.
Da pequena ideia à construção de uma marca
Sara Blakely começou com uma peça improvisada, US$ 5 mil e um trabalho que nada tinha a ver com moda.
Depois vieram os primeiros fabricantes, o nome Spanx, os primeiros varejistas, a exposição na televisão e o crescimento da empresa.
Em 2026, Sara também entrou para o National Inventors Hall of Fame, reconhecimento relacionado à invenção da meia-calça sem pés de controle que deu origem à Spanx.
Mas talvez a parte mais interessante da história não seja chegar a um patrimônio bilionário ou ter uma empresa avaliada em mais de US$ 1 bilhão.
É voltar ao começo e perceber que o negócio nasceu de uma situação que parecia pequena.
Uma roupa branca.
Uma peça que não funcionava como ela queria.
Uma tesoura.
Uma ideia.
E a decisão de descobrir se aquilo poderia virar alguma coisa.
É assim que muitas oportunidades começam.
Não com certeza.
Não com um plano perfeito.
Mas com uma pergunta.
“E se eu tentar?”
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