Oi, empreendedora! Bem-vinda de volta ao Você Empreendedor.
Quando a gente fala em empreendedorismo, é comum imaginar alguém que teve uma grande ideia já adulto, abriu uma empresa e começou a crescer.
A história de Lena Peron começou muito antes disso.
Aos 6 anos, durante uma visita à fábrica de cosméticos de um tio, ela ficou fascinada pelos pequenos frascos, pelos produtos e por tudo o que acontecia naquele ambiente. Segundo a própria história contada pela feito brasil, aquela experiência despertou nela o sonho de um dia ter sua própria indústria de cosméticos.
O curioso é que esse sonho demorou décadas para ganhar forma.
E, quando finalmente ganhou, não nasceu como uma grande indústria.
Nasceu de maneira muito mais simples: com cosméticos artesanais, uma pequena produção e uma empreendedora tentando descobrir como transformar uma paixão antiga em negócio.
Foi assim que começou uma trajetória que levaria Lena a criar a feito brasil, marca conhecida por unir cosméticos, artesanato, identidade brasileira e experiências sensoriais.
E essa história tem uma parte particularmente delicada: a empresa também passou a fazer parte da história da família depois de uma perda profunda.
Por isso, vale conhecer essa trajetória sem transformá-la em uma história pronta de “superação”.
O que existe aqui é uma mulher que construiu um negócio, enfrentou mudanças, encontrou um posicionamento próprio e, ao longo do caminho, precisou continuar empreendendo enquanto a vida também acontecia.
O sonho dos vidrinhos coloridos virou uma primeira tentativa
Lena Peron é formada em Letras e tem especialização em marketing experiencial. Sua atuação profissional no setor de cosméticos começou em 1999.
Antes da feito brasil, ela chegou a criar outra empresa no segmento, a Naturythá — experiência que fez parte de seu aprendizado empresarial.
Em relatos publicados pela própria Lena, ela conta que aquele período representou a decisão de deixar para trás a segurança conhecida e se mudar para o Paraná para empreender.
Então, em 2004, nasceu a feito brasil.
A marca começou trabalhando com produtos de banho e uma proposta que já indicava algo diferente do caminho mais convencional do mercado: não bastava fabricar um cosmético.
Lena queria criar uma experiência.
A empresa descreve sua origem como uma tentativa de romper com a mesmice do setor e valorizar ingredientes, formas, cores, histórias e referências brasileiras. Hoje, a própria marca se apresenta como uma “casa criativa” de cosméticos artesanais de luxo, com coleções inspiradas na cultura e na biodiversidade do Brasil.
Isso parece muito bonito olhando para trás.
Mas existe uma decisão empresarial importante escondida aí.
Lena não tentou simplesmente ser mais uma marca de cosméticos.
Ela foi construindo uma identidade.
E identidade, para uma empresa pequena, pode ser uma ferramenta muito poderosa.
Em vez de esconder o Brasil, ela decidiu colocá-lo no centro da marca
Imagine uma prateleira cheia de cosméticos.
Agora imagine que, em vez de tentar parecer uma marca internacional genérica, uma empresa escolha contar histórias sobre o próprio país.
Foi esse caminho que a feito brasil começou a construir.
A marca passou a trabalhar com coleções inspiradas em diferentes regiões, elementos culturais, biodiversidade e referências brasileiras. A embalagem, os nomes, as fragrâncias e até o trabalho artesanal passaram a fazer parte da experiência. A Sephora descreve a marca justamente destacando essa combinação de cosméticos, brasilidade, artesanato e referências culturais.
E aqui existe uma pergunta interessante para qualquer pequeno empreendedor:
O que você está tentando esconder no seu negócio que poderia justamente ser o seu diferencial?
Pode ser sua cidade.
Sua história.
Seu sotaque.
Uma técnica que aprendeu com alguém da família.
Uma matéria-prima regional.
Um jeito diferente de atender.
Uma experiência que você viveu.
Muitas empresas passam tanto tempo tentando parecer com as maiores que acabam apagando aquilo que poderia torná-las reconhecíveis.
Lena fez o movimento contrário.
A identidade brasileira passou a ser parte do produto.
E isso não ficou apenas no discurso.
Em 2015, uma reportagem da Brazil Beauty News registrou o reconhecimento que a empresa vinha recebendo por trabalhar com cosméticos veganos, fabricação artesanal e valorização da cultura brasileira. Naquele ano, a feito brasil recebeu o Prêmio ABIHPEC — Beleza Brasil na categoria Empreendedorismo.
Então veio uma mudança que nenhuma empreendedora planeja
A história de Lena também passou por uma tragédia familiar.
Seu filho Filipe, que participava do negócio da família, morreu aos 18 anos em um acidente, segundo reportagens e relatos publicados pela própria empresa.
Em entrevista ao UOL Ecoa, a família explicou que a perda passou a dar outro significado à empresa. Filipe havia sido emancipado para atuar no negócio e a empresa acabou ganhando uma dimensão ainda mais ligada à família Peron.
Esse é um daqueles momentos em que precisamos ter cuidado com a maneira de contar uma história empreendedora.
Não seria justo dizer que a tragédia “fez Lena ter sucesso”.
Nem que a perda foi necessária para que a empresa crescesse.
A dor não precisa ser transformada em combustível empresarial para que a história tenha valor.
O que podemos afirmar é que, depois dessa perda, a relação entre a empresa, a família e o propósito passou por uma transformação.
Lena continuou conduzindo o negócio.
Seu outro filho, Giulio Peron, também cresceu profissionalmente dentro desse universo. Em 2019, o UOL registrava Giulio como CEO da marca e mostrava como ele havia convivido desde cedo com a empresa criada pela mãe.
E isso nos leva a outra realidade pouco mostrada nas histórias de empreendedorismo:
empresa familiar também precisa lidar com família de verdade.
Há sucessão.
Há perdas.
Há mudanças de função.
Há filhos que seguem caminhos próprios.
Há pessoas que entram e saem.
E há decisões empresariais que não podem ser tomadas apenas com base no vínculo familiar.
A trajetória dos Peron mostra justamente essa mistura entre negócio e vida pessoal.
A pequena fábrica artesanal encontrou espaço em um mercado muito maior
Enquanto a empresa crescia, Lena manteve uma característica que poderia parecer incompatível com a expansão: a produção artesanal.
A fábrica foi instalada em uma chácara em Mandaguaçu, no Paraná, e a empresa construiu sua operação em torno de fornecedores locais, produção manual e uma equipe predominantemente feminina. Em 2019, a CACINOR registrou que 100% da produção era realizada por mulheres de Mandaguaçu e que a gestão era majoritariamente feminina.
Não significa que “artesanal” seja automaticamente melhor.
O ponto interessante é outro.
Lena encontrou uma maneira de transformar uma característica de produção em parte do posicionamento da marca.
Isso pode ser muito diferente de simplesmente colocar a palavra “artesanal” em uma embalagem.
A empresa precisava fazer com que o consumidor percebesse valor nessa escolha.
E foi aí que produto, história, embalagem, identidade brasileira, produção manual e experiência passaram a conversar entre si.
Essa coerência ajudou a marca a conquistar espaços importantes.
A ESPM registra que a feito brasil foi a primeira marca 100% brasileira a entrar na Sephora e destaca sua presença também em hotéis de luxo como Copacabana Palace e Fasano Boa Vista.
A própria Sephora apresenta a marca como uma experiência de beleza brasileira, destacando os produtos, as matérias-primas, o trabalho artesanal e as referências culturais presentes nas coleções.
É uma evolução interessante:
primeiro, você cria alguma coisa pequena. Depois, precisa descobrir por que alguém deveria prestar atenção nela.
Lena encontrou parte dessa resposta na identidade.
O que essa história ensina para quem está começando pequeno?
Talvez você esteja lendo tudo isso e pensando:
“Mas eu não tenho uma fábrica.”
Nem precisa.
A grande lição da história da Lena não está nos cosméticos.
Está na construção de valor.
Imagine uma pessoa que vende bolos.
Ela pode simplesmente vender “bolo de chocolate”.
Ou pode descobrir uma história, uma receita, uma apresentação, uma experiência de entrega e um posicionamento que façam aquele bolo ser reconhecido.
Uma pessoa que vende artesanato pode competir apenas por preço.
Ou pode transformar o processo, a origem dos materiais e a história por trás de cada peça em parte da experiência.
Um produtor de conteúdo pode repetir o que todo mundo fala.
Ou pode encontrar uma maneira própria de explicar um assunto.
Um pequeno negócio não precisa necessariamente ter o maior orçamento.
Mas precisa responder a uma pergunta:
“Por que alguém lembraria de mim depois de conhecer meu produto?”
No caso da feito brasil, a resposta foi construída ao longo dos anos: cosméticos artesanais, brasilidade, cultura, biodiversidade, experiência e uma estética própria.
Não aconteceu de uma vez.
Foi sendo construído.
E essa talvez seja uma das partes mais úteis da história.
Não é preciso parecer grande para construir uma marca grande
Existe uma tentação enorme entre pequenos empreendedores: tentar parecer uma empresa enorme desde o primeiro dia.
Queremos o logo perfeito.
O site perfeito.
A embalagem perfeita.
As fotos perfeitas.
A identidade visual perfeita.
Tudo antes mesmo de descobrir se alguém realmente quer comprar.
A história de Lena mostra outro caminho.
Ela tinha uma paixão antiga pelo setor, adquiriu experiência, empreendeu antes da feito brasil, criou uma nova empresa em 2004 e foi desenvolvendo a identidade do negócio ao longo do tempo. A marca que hoje apresenta uma estrutura sofisticada nasceu de uma operação muito mais artesanal.
Isso muda a pergunta.
Talvez você não precise começar parecendo grande.
Talvez precise começar coerente.
Se seu produto é simples, conte a verdade sobre ele.
Se sua produção é pequena, transforme essa proximidade em cuidado.
Se você conhece profundamente um problema, use esse conhecimento.
Se sua região tem algo especial, não esconda.
Se sua história tem algo verdadeiro que ajuda a explicar por que você faz aquilo, conte.
Marca não é apenas desenho.
Marca é a memória que fica depois que a pessoa vai embora.
E a feito brasil construiu boa parte dessa memória justamente fazendo com que seus produtos carregassem uma história.
Uma pergunta para levar desta história
Lena Peron começou com um sonho que nasceu quando era criança.
Mas o negócio não cresceu simplesmente porque ela tinha um sonho.
Cresceu porque o sonho precisou virar produto, empresa, posicionamento, distribuição, equipe e decisões.
Essa diferença é fundamental.
Sonhar pode ser o começo.
Empreender é descobrir o que fazer com o sonho depois.
Então, antes de terminar este artigo, faça uma pequena experiência.
Olhe para aquilo que você vende hoje e responda:
Se eu retirasse meu nome, meu logo e meu preço, o que ainda faria alguém reconhecer que esse produto é meu?
Se a resposta vier rapidamente, talvez você já tenha uma identidade.
Se não vier, não é um problema.
Talvez seja justamente uma boa oportunidade para começar a construí-la.
Para guardar desta história
Lena Peron: empreendedora brasileira e fundadora da feito brasil.
Primeiro contato com os cosméticos: ainda criança, aos 6 anos, em uma visita à fábrica de um tio.
Início profissional no setor: 1999.
Nascimento da feito brasil: 2004.
Diferencial construído: cosméticos artesanais associados à brasilidade, cultura, biodiversidade e experiência sensorial.
Um marco importante: entrada da marca na Sephora, destacada pela ESPM como a primeira marca 100% brasileira a chegar à rede.
Lição principal: um pequeno negócio pode transformar sua própria identidade em parte do valor percebido pelo cliente.
E talvez seja essa a pergunta que vale levar para o seu negócio:
“O que existe na minha história, no meu produto ou na minha forma de trabalhar que eu ainda não estou usando para construir valor?”
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