Oi, empreendedora! Bem-vinda de volta ao Você Empreendedor.
Na primeira história da nossa série, conhecemos Joy Mangano, uma mãe de três filhos que enxergou uma oportunidade em um problema bastante comum dentro de casa e transformou essa observação em produto. Hoje, nossa história muda de cenário e vem para o Brasil.
Desta vez, não estamos falando de um esfregão, mas de algo que durante muito tempo também foi tratado de maneira bastante simples pelo mercado: os cabelos cacheados e crespos.
A história de Márcia Marques, fundadora da Diva dos Cachos, começa em um salão de beleza e passa por uma transformação que foi, ao mesmo tempo, profissional e pessoal. Depois de mais de duas décadas trabalhando no mercado da beleza, Márcia viveu a própria transição capilar e começou a perceber de outra maneira as necessidades de clientes que chegavam procurando cuidados específicos para cabelos cacheados e crespos.
O que aconteceu depois não foi simplesmente a criação de mais um salão especializado.
Foi a transformação de um negócio que já existia, a construção de uma nova identidade e, posteriormente, o desenvolvimento de uma linha própria de cosméticos. A trajetória também ganhou um capítulo inesperado quando Márcia morreu em 2022, deixando para as filhas, Amanda e Ana, a responsabilidade de continuar o trabalho que havia começado.
É uma história sobre empreendedorismo, mas também sobre perceber uma mudança no comportamento das pessoas e entender que uma necessidade específica pode representar uma oportunidade de negócio.
De um salão tradicional a um negócio especializado
Márcia já tinha experiência no mercado de beleza quando essa transformação começou. Segundo a história publicada pela própria Diva dos Cachos, ela acumulava mais de 20 anos de atuação no setor e administrava um salão chamado Márcia Marques e Equipe, que tinha uma proposta mais tradicional e trabalhava também com serviços de alisamento.
A mudança começou a acontecer quando a própria Márcia passou pela transição capilar.
Esse detalhe é importante porque ela não estava simplesmente observando uma tendência de mercado de longe. Ela estava vivendo aquela experiência no próprio cabelo e, ao mesmo tempo, percebendo que outras mulheres também estavam procurando maneiras diferentes de cuidar de seus fios.
Gradualmente, clientes com cabelos cacheados e crespos começaram a procurar o salão. E Márcia percebeu que aquela procura não precisava ser tratada como um serviço complementar dentro de um salão tradicional. Poderia existir ali uma proposta completamente diferente.
Foi então que o antigo Márcia Marques e Equipe deu lugar ao Diva dos Cachos por Márcia Marques. A própria empresa descreve essa mudança como uma transição importante na trajetória do negócio: de um salão tradicional para uma empresa voltada especificamente ao atendimento de cabelos cacheados e crespos.
E aqui existe uma lição empresarial interessante.
Às vezes, empreender não significa começar alguma coisa do zero.
Pode significar perceber que o negócio que você já possui precisa mudar de direção.
Márcia já tinha experiência, clientes, estrutura e conhecimento sobre beleza. O que mudou foi a maneira como ela enxergava o mercado e o público que poderia atender.
Isso é diferente de abandonar tudo e começar novamente.
É olhar para aquilo que já foi construído e perguntar:
“Existe uma oportunidade aqui que eu ainda não estou aproveitando?”
No caso dela, havia.
Quando um mercado começa a pedir outra coisa
A história da Diva dos Cachos também precisa ser entendida dentro de uma transformação maior no comportamento dos consumidores.
Durante muito tempo, mulheres com cabelos cacheados e crespos encontraram um mercado de beleza muito mais concentrado em produtos e serviços voltados aos cabelos lisos. Paralelamente, ganhou força o movimento de valorização dos fios naturais e de pessoas que passaram a abandonar processos de alisamento.
Em entrevista publicada pelo IstoÉ em 2022, Amanda Marques, filha de Márcia e então empresária da Diva dos Cachos ao lado da irmã Ana, relacionou o crescimento desse mercado à valorização dos cabelos naturais, às redes sociais e às mudanças nas discussões sobre diversidade e identidade. A reportagem também citou dados segundo os quais as buscas por cabelos cacheados e afro haviam crescido significativamente no período analisado.
É justamente nesse ponto que a história de Márcia fica especialmente interessante para quem empreende.
Ela não criou uma necessidade do nada.
A necessidade já estava aparecendo.
As pessoas estavam procurando profissionais que soubessem cuidar de seus cabelos. Estavam procurando produtos específicos. Estavam procurando informação. E estavam, cada vez mais, querendo entender como cuidar dos próprios fios sem necessariamente recorrer aos mesmos procedimentos que haviam sido considerados padrão durante tantos anos.
A própria Amanda explicou, naquela entrevista, que o salão passou a receber também muitas crianças levadas pelas mães. Segundo ela, eram mulheres que queriam aprender a cuidar dos cabelos das filhas e evitar que elas passassem pela mesma pressão para alisar os fios que muitas delas próprias haviam experimentado.
Esse detalhe mostra que o negócio não estava lidando apenas com cabelo.
Havia uma necessidade de conhecimento, atendimento especializado, confiança e identificação.
E isso muda completamente a relação entre empresa e cliente.
Uma pessoa que procura um serviço muito específico não está necessariamente procurando apenas alguém que execute uma tarefa. Ela quer encontrar alguém que entenda o problema que ela tem.
Márcia parece ter percebido justamente isso.
Da prestação de serviço para os próprios produtos
A transformação não parou no salão.
Em 2020, segundo a história publicada pela própria Diva dos Cachos, Márcia desenvolveu sua própria linha de cosméticos para clientes e profissionais, movida pelo interesse em produtos para cabelos cacheados e crespos.
Esse passo representa uma mudança importante do ponto de vista empresarial.
Um salão presta principalmente um serviço.
Quando uma empresa desenvolve seus próprios produtos, passa a trabalhar também com uma mercadoria que pode chegar ao consumidor mesmo quando ele não está fisicamente dentro daquele estabelecimento.
É uma expansão natural que muitos negócios de serviço podem considerar: o conhecimento adquirido atendendo clientes pode revelar oportunidades para produtos próprios.
No caso da Diva dos Cachos, a empresa atualmente mantém linhas destinadas tanto ao consumidor quanto ao uso profissional, com produtos como shampoo, condicionador, creme de pentear, co-wash, geleia capilar e tratamentos. O catálogo atual também apresenta kits direcionados a diferentes tipos de cabelo, além de uma linha profissional.
A empresa também mantém serviços especializados para cabelos cacheados e crespos, incluindo tratamentos e procedimentos desenvolvidos ou associados ao trabalho iniciado por Márcia. Entre eles está a chamada Nano Cristalização, apresentada pela própria empresa como um tratamento desenvolvido por ela.
Perceba o caminho percorrido.
Primeiro havia uma profissional da área da beleza.
Depois veio um salão.
O salão percebeu uma necessidade específica.
A necessidade ajudou a mudar o posicionamento do negócio.
E, posteriormente, o conhecimento acumulado no atendimento contribuiu para o desenvolvimento de produtos próprios.
Não foi um negócio que nasceu pronto. Ele foi se transformando.
Quando a história da empresa passa para as filhas
A história de Márcia ganhou uma reviravolta dolorosa em 2022.
Segundo a própria Diva dos Cachos, Márcia morreu naquele ano em decorrência da Covid-19. A continuidade do negócio ficou então nas mãos de suas filhas, Amanda e Ana Marques.
E essa parte merece ser contada com cuidado.
É muito comum histórias de empresas familiares serem apresentadas como se a sucessão fosse simplesmente uma passagem de bastão: a mãe constrói e as filhas continuam.
Na prática, não costuma ser tão simples.
A própria empresa reconhece que trabalhar juntas trouxe desafios para as duas irmãs. Segundo o relato publicado pela marca, Amanda e Ana precisaram aprender a lidar com diferenças, encontrar um equilíbrio na parceria e, ao mesmo tempo, preservar a visão que haviam recebido da mãe.
Isso é empreendedorismo também.
Não existe apenas o desafio de conquistar clientes.
Existe o desafio de trabalhar com pessoas próximas, dividir responsabilidades, tomar decisões e construir uma relação profissional sem destruir a relação pessoal.
No caso de Amanda e Ana, essa relação já existia antes do negócio. As duas haviam crescido acompanhando a trajetória empreendedora da mãe. Depois da morte de Márcia, porém, passaram a ter uma responsabilidade adicional: não apenas administrar uma empresa, mas decidir o que fazer com o legado que haviam recebido.
Em entrevista ao IstoÉ, Amanda falou sobre a evolução do setor e sobre a necessidade de inovação para quem atua nesse mercado. Ela também destacou que o crescimento do segmento trouxe novos concorrentes e tornou ainda mais importante encontrar soluções criativas e construir uma relação de confiança com as clientes.
Essa talvez seja uma das partes mais interessantes da trajetória da Diva dos Cachos.
O legado não significa congelar o negócio no passado.
Continuar uma empresa também pode significar adaptá-la.
O que a história de Márcia Marques pode ensinar a quem quer empreender?
Talvez a primeira lição esteja justamente na capacidade de mudar de direção sem jogar fora tudo o que já foi construído.
Márcia tinha experiência no mercado da beleza e já possuía um salão. Quando percebeu que havia uma demanda crescente por atendimento especializado para cabelos cacheados e crespos, ela transformou o posicionamento do negócio. Não precisou começar sem nenhuma experiência. Usou o conhecimento que já tinha para atender um público de uma maneira mais específica.
A segunda lição é sobre escutar o cliente.
A mudança não aconteceu simplesmente porque alguém decidiu que “cachos estavam na moda”. Clientes começaram a aparecer procurando aquele tipo de atendimento. A procura ajudou a revelar uma demanda que poderia ser atendida de maneira mais especializada.
Essa diferença é fundamental.
Empreender não é apenas decidir o que você quer vender.
É também observar o que as pessoas estão procurando.
A terceira lição é sobre especialização.
Em um mercado grande como o da beleza, uma empresa pode tentar atender todo mundo. Mas também pode escolher conhecer profundamente um determinado público e construir sua reputação a partir dessa especialização.
Foi o caminho que a Diva dos Cachos seguiu.
E existe ainda uma quarta lição: um negócio pode crescer para além da sua atividade original.
A empresa começou com o atendimento em salão e posteriormente passou a desenvolver produtos próprios. Hoje, sua atuação envolve serviços, produtos para consumidores e produtos profissionais.
Isso não significa que todo salão deva criar uma linha de cosméticos.
A lição é outra.
Observe o que seu próprio negócio está ensinando a você.
Talvez os clientes façam sempre a mesma pergunta.
Talvez peçam algo que você não oferece.
Talvez exista um problema recorrente que ninguém resolveu satisfatoriamente.
Talvez o conhecimento que você acumulou prestando um serviço possa se transformar em produto, treinamento, consultoria ou outra fonte de receita.
Foi justamente a proximidade com o cliente que ajudou a revelar novos caminhos para a Diva dos Cachos.
Uma marca pode nascer quando alguém decide olhar para um público com mais atenção
A trajetória de Márcia Marques não é apenas uma história sobre cosméticos.
É uma história sobre posicionamento.
Ela começou com um salão que atendia dentro de um modelo mais tradicional. A própria experiência de transição capilar e a chegada gradual de clientes procurando cuidados para cabelos cacheados e crespos fizeram com que ela percebesse uma oportunidade diferente. O salão mudou de identidade, passou a se especializar e, posteriormente, desenvolveu produtos próprios.
Isso nos leva a uma pergunta que qualquer empreendedor pode fazer, independentemente do setor:
Será que estou tentando atender todo mundo quando poderia ser muito melhor para um determinado grupo de pessoas?
Às vezes, encontrar um nicho não significa diminuir o negócio.
Pode significar ficar mais relevante para quem realmente precisa daquilo que você oferece.
A Diva dos Cachos construiu sua trajetória justamente a partir dessa especialização.
E existe algo bonito nessa história: a mudança começou quando uma empreendedora percebeu que não precisava simplesmente repetir o que o mercado já fazia.
Ela poderia fazer diferente.
O legado de Márcia continua sendo construído
Márcia Marques morreu em 2022, mas a empresa que ajudou a construir continua ativa e atualmente é conduzida pelas filhas Amanda e Ana. A própria marca apresenta essa continuidade como parte central de sua história.
Hoje, quem entra no site da Diva dos Cachos encontra uma empresa que reúne produtos para consumidoras, linha profissional, kits, tratamentos e conteúdo relacionado ao universo dos cabelos cacheados e crespos.
É interessante perceber como aquele salão que um dia se chamava Márcia Marques e Equipe passou por tantas transformações.
Primeiro, houve a experiência pessoal da própria empreendedora.
Depois, a percepção das necessidades das clientes.
Em seguida, a mudança de posicionamento.
Depois vieram os produtos.
E, por fim, uma nova geração assumiu a responsabilidade de continuar e expandir o trabalho.
Não é uma história sobre encontrar uma fórmula pronta.
É uma história sobre prestar atenção ao mercado, reconhecer uma mudança e ter coragem para mudar junto com ela.
Talvez seja justamente essa a parte que mais interessa a quem está começando um negócio.
Você não precisa necessariamente descobrir algo que nunca existiu.
Pode começar percebendo uma necessidade que já existe, mas que ainda não está sendo atendida da maneira que as pessoas gostariam.
Foi nesse espaço que Márcia encontrou uma oportunidade.
E foi ali que começou a construir a Diva dos Cachos.
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