Oi, empreendedora! Bem-vinda de volta ao Você Empreendedor.
Às vezes, uma empresa começa com um plano.
Outras vezes, começa com uma pessoa fazendo alguma coisa que gosta, dentro de casa, sem imaginar muito bem onde aquilo vai chegar.
A história de Erecina Melo pertence à segunda categoria.
Em 1985, em Belo Horizonte, uma dona de casa começou a produzir artesanalmente colares, brincos e acessórios de cabelo. No início, ela vendia para amigos e também nas proximidades da escola dos filhos.
Não havia uma grande estrutura.
Não havia uma estratégia sofisticada de expansão.
Havia fios, pedras, metais, ferramentas e, principalmente, habilidade para transformar aqueles materiais em peças que despertavam interesse.
O que começou de maneira quase despretensiosa acabou se transformando na Erê Bijou, uma marca de acessórios que atravessou quatro décadas e, atualmente, é conduzida por Erecina ao lado da filha, Érika Melo.
É uma história sobre empreendedorismo feminino, mas também sobre uma coisa que costuma ser bem mais difícil do que abrir uma empresa:
passar um negócio de uma geração para outra sem perder aquilo que fez a empresa nascer.
Primeiro vieram as peças. Depois vieram os clientes
Erecina não começou pensando em construir uma grande marca de acessórios.
Segundo o Sebrae Minas, ela começou produzindo as peças artesanalmente em casa e vendendo para pessoas próximas. Aos poucos, o estilo dos acessórios começou a chamar atenção e a clientela foi aumentando.
É interessante observar esse começo porque ele desmonta uma ideia bastante comum sobre empreendedorismo.
Muita gente imagina que, para abrir um negócio, primeiro é preciso ter uma empresa.
Mas, em muitos casos, acontece exatamente o contrário.
Primeiro existe uma habilidade.
Depois aparece alguém disposto a pagar por aquilo.
A demanda aumenta.
E somente então surge a necessidade de transformar aquela atividade em um negócio mais estruturado.
Foi mais ou menos esse caminho que aconteceu com Erecina.
As peças começaram a circular.
As pessoas começaram a conhecer.
E aquilo que era feito dentro de casa começou a encontrar espaço fora dela.
A primeira grande mudança veio quando Erecina passou a participar da tradicional Feira Hippie de Belo Horizonte.
Ela conta que começou a expor no local às quintas-feiras à noite e aos domingos pela manhã. Naquele período, porém, participar das feiras não era simplesmente montar uma mesa e começar a vender: era necessário possuir carteira de artesão para comercializar os produtos nos eventos.
Depois veio outro passo.
A empresa chegou à Galeria do Ouvidor, também em Belo Horizonte.
E existe um detalhe interessante nessa fase: inicialmente, o negócio não vendia apenas peças prontas. A empresa trabalhava também com peças para montagem.
Ou seja, a atividade foi mudando conforme novas oportunidades apareciam.
Isso é algo que pequenos empreendedores podem observar com atenção.
O negócio que você começa não precisa ser exatamente o negócio que você terá dez anos depois.
O mercado apresenta novas necessidades.
Os clientes fazem pedidos.
Você descobre novas habilidades.
E, pouco a pouco, aquilo que era uma atividade artesanal pode ganhar novos formatos.
De “Erê” a uma marca
O nome da empresa também nasceu de uma maneira curiosa.
Erecina é um nome pouco comum. Segundo sua filha, Érika, os próprios clientes começaram a chamá-la de Erê.
O apelido pegou.
E acabou virando o nome da loja.
É um detalhe pequeno, mas diz muito sobre construção de marca.
Às vezes, o nome que funciona melhor não é necessariamente aquele que nasceu depois de uma reunião de marketing com várias opções em uma planilha.
Pode ser aquele que as pessoas já usam naturalmente.
No caso da Erê, o próprio público ajudou a batizar o negócio.
Com o passar dos anos, a empresa foi deixando de ser apenas uma atividade artesanal e passou a participar de eventos importantes do setor de moda e acessórios, como Minas Trend, Couromoda, Francal, Bijoias e Gift Fair.
A trajetória também levou a marca a construir uma identidade associada a acessórios de pedras naturais, design e produção própria.
Mas talvez a parte mais interessante esteja acontecendo agora.
Porque a história não terminou com a fundadora.
Quando a filha entra no negócio
Hoje, Erecina trabalha ao lado da filha, Érika Melo.
Érika é formada em Direito, mas assumiu a função de diretora executiva da empresa. Enquanto a filha cuida principalmente da gestão, Erecina continua diretamente ligada à criação dos produtos.
E essa divisão é muito interessante.
Porque sucessão familiar não significa necessariamente que a geração seguinte precise fazer exatamente o que a anterior fazia.
Pelo contrário.
Talvez a empresa precise justamente de habilidades diferentes.
Erecina possui décadas de experiência com criação, materiais, clientes e mercado.
Érika traz formação e atuação voltadas à gestão.
Uma não precisa substituir a outra.
Elas podem ocupar lugares diferentes dentro do mesmo negócio.
Essa é uma questão importante para qualquer empresa familiar.
Quando um filho entra no negócio dos pais, existe uma tentação de imaginar que ele simplesmente continuará fazendo tudo exatamente como antes.
Mas uma empresa que atravessa décadas precisa mudar.
A geração seguinte pode trazer tecnologia, gestão, comércio eletrônico, processos, comunicação digital e novas formas de chegar ao consumidor.
E, ao mesmo tempo, precisa compreender aquilo que não pode ser perdido.
No caso da Erê, esse equilíbrio aparece claramente.
Érika assumiu responsabilidades de gestão, enquanto a mãe continua participando da criação.
É quase como se cada geração cuidasse de uma parte diferente da mesma história.
O desafio agora é outro: o mundo ficou digital
Depois de mais de quatro décadas, a empresa chegou a um cenário completamente diferente daquele em que começou.
Quando Erecina vendia suas primeiras peças, não existia Instagram.
Não existia e-commerce.
Não existia WhatsApp para receber pedido em segundos.
Não existia venda por redes sociais.
O relacionamento com o consumidor era predominantemente presencial.
Hoje, a realidade é outra.
E é justamente aí que aparece um dos desafios mais interessantes da história.
Segundo o Sebrae Minas, a empresa recebeu apoio por meio de programas como o Integra Moda e o Sebraetec, buscando fortalecer gestão, estrutura organizacional, conexões comerciais e presença digital.
Érika destaca especialmente a importância das consultorias relacionadas ao comércio eletrônico e à presença online.
A empresa já tinha uma trajetória física consolidada, mas precisava continuar evoluindo para acompanhar o ambiente digital. Também passou a utilizar um software de vendas mais profissional com apoio do Sebraetec.
Essa parte da história talvez seja uma das mais importantes para quem está começando agora.
Porque existe uma impressão de que negócios antigos precisam ensinar tudo aos negócios novos.
Mas não é bem assim.
Os negócios novos também podem ensinar alguma coisa aos antigos.
Uma empresa que existe há quarenta anos pode ter experiência, reputação, clientes e conhecimento de produto.
Mas pode precisar aprender sobre comércio eletrônico, redes sociais, dados, automação e novas formas de comunicação.
Da mesma maneira, uma empresa criada hoje pode dominar o digital, mas ainda precisar aprender coisas que só o tempo ensina: relacionamento com fornecedores, qualidade, negociação, atendimento e conhecimento profundo do cliente.
O encontro dessas duas coisas pode ser muito poderoso.
A terceira geração já está olhando
Existe ainda uma cena bonita — e bastante reveladora — nessa história.
A empresa não está apenas na passagem de Erecina para Érika.
Os filhos de Érika, Vitor e Lucas, também já convivem com o negócio.
Segundo reportagem publicada em 2026, os dois, então com 14 e 10 anos, acompanham o cotidiano da empresa e ajudam em pequenas tarefas, como etiquetar produtos. Érika conta que seria especial ver esse legado continuar com eles.
Mas aqui vale fazer uma distinção importante.
Uma criança crescer perto de uma empresa não significa que ela necessariamente deverá assumir o negócio no futuro.
O mais interessante nessa história é justamente a possibilidade.
A empresa chegou à terceira geração como parte do ambiente familiar.
O que cada um fará com essa história no futuro é outra questão.
E talvez seja assim que uma sucessão saudável deveria ser encarada:
como possibilidade, não como obrigação.
O que uma dona de casa pode ensinar sobre empreendedorismo?
Talvez essa seja a pergunta mais interessante desta história.
Porque Erecina não aparece como alguém que começou com uma grande estrutura empresarial.
Ela era dona de casa.
Produziu peças em casa.
Começou vendendo para pessoas próximas.
Depois encontrou novos lugares para vender.
Aprendeu o mercado.
Participou de feiras.
Construiu uma clientela.
Criou uma marca.
E, décadas depois, continua envolvida na criação dos produtos.
Isso não significa que qualquer pessoa que faça um produto em casa automaticamente terá uma empresa de quarenta anos.
Não existe essa garantia.
Mas existe uma lição concreta:
começar pequeno não significa pensar pequeno.
Você pode começar fazendo cinco peças.
Vendendo para três pessoas.
Atendendo os vizinhos.
Divulgando para conhecidos.
Testando uma ideia no seu bairro.
O tamanho inicial não determina necessariamente o tamanho futuro.
O que importa é o que acontece depois.
Você observa.
Aprende.
Melhora.
Entende o cliente.
Descobre onde existe demanda.
E decide se vale a pena dar o próximo passo.
Foi assim que uma atividade artesanal começou a se transformar em negócio.
E talvez a maior lição seja sobre continuidade
Existe uma diferença entre criar uma empresa e criar algo que consegue atravessar gerações.
Erecina construiu a primeira parte.
Érika está trabalhando na segunda.
A empresa agora precisa continuar encontrando espaço em um mercado que mudou completamente desde 1985.
Isso significa preservar o que torna a Erê reconhecível sem impedir que ela mude.
É uma tarefa difícil.
E é justamente por isso que essa história merece estar nesta série.
Porque empreendedorismo não é somente começar.
Também é continuar.
Continuar quando o mercado muda.
Continuar quando os consumidores mudam.
Continuar quando a tecnologia muda.
Continuar quando a pessoa que começou o negócio já não consegue fazer tudo sozinha.
E, principalmente, saber quando é hora de passar uma parte do bastão.
No caso de Erecina, esse bastão não foi simplesmente entregue.
Ele está sendo compartilhado.
A mãe continua criando.
A filha administra.
A marca se moderniza.
E a história segue.
Talvez seja esse o verdadeiro significado de um negócio familiar:
não fazer tudo igual à geração anterior, mas encontrar uma maneira de fazer a história continuar fazendo sentido.
Para guardar desta história
Erecina Melo: fundadora da Erê, em Belo Horizonte.
Começo: produção artesanal de colares, brincos e acessórios de cabelo em casa, com vendas para amigos e nas proximidades da escola dos filhos.
Ano de criação da marca: 1985.
Primeiros espaços de venda: Feira Hippie de Belo Horizonte e, posteriormente, Galeria do Ouvidor.
Sucessão: a filha Érika Melo atua como diretora executiva, enquanto Erecina continua ligada à criação dos produtos.
Desafio atual: modernizar gestão e presença digital sem perder a identidade construída ao longo de décadas.
Lição principal: um negócio pode começar com uma habilidade simples, crescer aos poucos e, com o tempo, transformar-se em um patrimônio de conhecimento que pode ser compartilhado entre gerações.
E talvez você possa olhar para o seu próprio negócio e perguntar:
“O que eu estou construindo hoje que poderia continuar existindo daqui a dez, vinte ou quarenta anos?”
Talvez a resposta seja uma empresa.
Talvez seja uma marca.
Talvez seja apenas um conhecimento.
Mas, às vezes, é justamente assim que um pequeno trabalho começa a se transformar em um legado.
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